“Modernismo teme o amor”: Janete Clair previu a escassez de sentimentos na dramaturgia

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Basta assistir qualquer novela da dramaturga para identificar seu maior preceito narrativo: o amor. As novelas de Janete, acima de qualquer outra coisa, são novelas de amor. O sentimento predomina de todas as formas, principalmente entre o casal protagonista. Desencontros, armadilhas, desentendimentos e reencontros são construídos com um intuito maior: reforçar o amor entre os dois.

Se você é noveleiro, deve ter notado a escassez desse sentimento na teledramaturgia dos últimos tempos. Depois de “Tempo de Amar” (2017), nenhuma novela ‘ousou’ ter o amor como base condutora de todos os entrechos. Foi a última novela de amor, em que ninguém tinha vergonha de amar. Os folhetins têm sido sobre tudo: vingança, moda, dinheiro, ambição, crimes, fugas, militância, menos sobre amor. Até quando falava de dinheiro e ambição, Janete falava de amor – vide “Selva de Pedra”, “O Astro” e “Pecado Capital”. A própria novela das nove “Amor de Mãe” também não é sobre o amor que engana no título, pelo menos não é ele que predomina explícita ou implicitamente nas situações, muito pelo contrário.

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Na obra “Janete Clair” de Arthur Xexéo, o jornalista destaca o seguinte depoimento da novelista:

“O público está ansioso por cenas de amor, muito mais do que por saber quem matou quem […] Acho que as pessoas têm vergonha de falar de amor e de amar e, através da televisão, das novelas, se identificam demais. Eu não tenho vergonha de escrever nem de dizer que as pessoas se amam. O grande problema é que o modernismo teme o amor, os reencontros, as cenas românticas. Não é esse o meu caso. Os meus personagens amam muito.” (XEXÉO, Arthur. Janete Clair: a usineira de sonhos. Rio de Janeiro: Relume, 2005).

Defensora do sentimento, a escritora ainda falava de modernismo. Hoje, na pós-modernidade, a situação é ainda pior. Novelas sempre refletiram a realidade da época em que são exibidas, por isso me pergunto: a escassez do amor na dramaturgia é nada mais nada menos que um reflexo da sociedade que somos? Uma sociedade sem amor e com mais vergonha de amar e falar disso do que na época do modernismo? Parece que sim. E o problema é que não há nenhuma Janete para defender esse sentimento, ao menos, na ficção.

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Os autores da atualidade ou são pós-modernistas ao extremo, ou não ‘ousam’ apresentar uma narrativa que destaque o sentimento do qual as pessoas têm medo e sequer sabem vivenciar. Preferem focar na realidade das relações superficiais da época em que vivemos; em que a intensidade e a verdade não existem. Talvez eles estejam corretos. Se as pessoas fogem do amor, por que mostrá-lo na dramaturgia? É aí que Janete entrava. Precisa ter coragem pra falar de amor. Hoje, mais do que nunca.

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